Brasil - RJ - Niteróii -
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02 - MEA-CULPA

Paulo dormira bem à noite. Quando acordou, um zumbido em seu ouvido que parecia vir de seu interior o incomodava. Mas, não era somente isto. Sentia-se estranho, mas não sabia o porquê da sensação de desconforto que sentia. Se pudesse descrever com palavras a sensação que experimentava, como um escritor o faz, diria que era algo assim como uma sensação de frustração, causada pela distância entre o que a sua vida era e a imagem criada por sua consciência daquilo que achava que deveria ter sido. Mas, ele não era escritor e não sabia descrever tal sensação.

Fora isso, tudo o mais transcorria normalmente. O neto tomara o café da manhã que Sara preparara e já saíra. Era mais um dia em que tudo começava bem e que não se sabia como terminaria. Tudo iria depender do estado em que Felipe chegasse de volta a casa à noite ou, talvez, já na madrugada seguinte. O neto ficara morando com eles, desde que os pais se divorciaram e foi, cada um, para o seu lado, deixado o filho com eles; e lá se iam mais de quarenta anos do acontecido.

É comum as pessoas dizerem que a boca fala daquilo que o coração está cheio, mas não era assim que acontecia com Paulo; ele guardava tudo em seu coração.

Na verdade, podia-se prever o que aconteceria na manhã seguinte, uma vez que a consciência e os pensamentos coexistiam mutuamente na mente de Felipe, acusando-se ou defendendo-se por não conseguir se controlar frente à bebida; porque o que fazia não aprovava, pois, o que queria isso não fazia, mas o que o aborrecia, isso acabava fazendo. Com efeito, o querer estava nele, mas não o executar. De maneira que seu pensamento o desculpava, dizendo que não era ele que fazia isto, mas sim, todo sentimento carnal que habitava em seu coração.

Era madrugada quando Felipe chegou. Desta vez, mais embriagado do que o de costume. E, do quarto do casal, Paulo e Sara, com seus corações doridos, ouviam tudo o que o neto dizia. Era sempre o mesmo discurso; algumas vezes pior.

- “Meu pai é o culpado! A culpa por eu ser um alcoólatra é dele... Eu não tive infância... Nunca tive um pai presente... um pai para estar presente nas reuniões no colégio... nunca vou perdoar por ter sofrido  Bullying dos meus colegas... Ele nunca soube das situações pelas quais eu passei... Nunca foi o pai que deveria ter sido... Tem que pedir perdão, seu canalha... você destruiu a minha vida...”


E assim, embriagado, Felipe continuou seu discurso  contra o pai, sobre o qual lançava a culpa por seu estado atual. Acabou vencido pelo sono e dormindo com a roupa que estava...


Continua no próximo Capítulo...

 

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EP. GHERAMER

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