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A MÁSCARA DA VERDADE

 

Não me lembro de quando esta ideia surgiu-me a primeira vez. Pode ter vindo de tempos imemoriáveis, onde ela já existia ou sempre existiu, mas que se esconde da mente consciente dado ao horror ou a loucura que provocaria, levando à desorganização do pensamento, fazendo-o retornar ao caos original, onde nada havia além do vazio das trevas.

Apareceu-me à noite, durante um sonho que costumamos chamar de pesadelo, de tão horrenda sua aparência. Pareceu-me uma perna esmagada de uma pessoa, presa numa engrenagem depois de um acidente de carro, e que eu arrancara este membro, com a intenção de reimplantá-la no corpo do qual havia ela se desprendido com o choque.
Mas, como fazer isto? Juntei as duas partes, isto é, o corpo e o membro, e levei-as a um médico ortopedista meu conhecido, para que me ajudasse em tal tarefa. Fui encontra-lo dentro de sala de aula, ministrando uma palestra para outros doutores, como ele. Tratava-se de um tipo superior de ensino e sobre o qual eu nada sabia e nem era importante para mim e nem o era para a ajuda que eu dele queria.

Não sei por que fui procurar a ele, especificamente; a não ser que tenha sido por causa de um acidente que eu sofrera na infância, quando ficara com os dedos da mão presos à roda dentada em que girava a corrente da bicicleta que saíra do seu lugar e eu tentava, inutilmente, colocar no lugar e acabara preso; ou, talvez de outro sonho, em que, na lonjura do tempo infinito, em que eu era membro do corpo da nobreza de um reino e que eu não consigo lembrar onde era; sei apenas que era governado por um rei, que eu, na minha suposta arrogância, achava ser um déspota. Digo suposta arrogância porque, à época, eu não achava ser arrogância ou orgulho sentir o que sentia. Na verdade, se bem me recordo de tal sonho, eu me sentia e colocava-me acima dele, por não acatar que ele fosse mais nobre ou superior a mim, em coisa alguma. Pensar e sentir assim eram o desejo irreprimível de colocar-me acima dele e ver seus servos, como se fossem meus e sob o estrado de meus pés. Era tão forte em mim este sentimento que só posso compará-lo à força, com a qual não consigo descrever, à sensação que experimentara durante o pesadelo.

Elevar-me àquelas alturas em que ele estava era a única coisa que desejava. Ele estava acima de todos e a turba de seus súditos, dele nada conseguia esconder. E por quê? Porque ele era onisciente. Só isto basta para tornar justo meu desejo. Sim, todas as mentes lhe eram transparentes; todos os pensamentos se lhe mostravam descobertos, nada escapava ao seu poder tirano. Mas não eu! Eu também queria este poder; poder pensar sem ser pensado. E, a este meu desejo, ele teve a coragem de chamar de “minha arrogância”. Seria arrogância isto? Pois, tão logo eu pensava, ele já o sabia e essa foi a razão de eu ter sido exilado daquele castelo, daquele reino; não permitia que mais alguém soubesse o que ele sabia; não permitia a existência de um ser igual a ele.

Diante de tal injustiça, coube-me apenas levar na mão uma máscara que impediria, para sempre, de ver o seu rosto verdadeiro, de ver a Verdade. Sobrou-me o imenso e indescritível desejo de vingança e aquela máscara tragicômica de uma só face, a que sofria, pois, a outra, aquela que sorria, ficara com ele.

E com ela eu criaria o meu próprio reino e, nele, eu seria tal como ele no dele. Agarrando-me a ela teria servos como ele; servos semelhantes a ela. Teriam apenas a face que me coubera, mas seriam meus. Um reino semelhante, embora disforme; até a formosura ele me tirou. Mas eu colocaria aquela máscara e dela emergiriam seres perfeitamente imperfeitos.

Sobre aquela massa informe, eu coloquei a máscara que chorava, com um falso sorriso. E, assim, iludidos, eles viveriam felizes para sempre suas falsas vidas. Coloquei nos rosto deles a máscara que me foi dada, de modo que se tornaram um arremedo do que ele queria que eu fosse.
Mas, tal como no pesadelo que tivera, aquela boa máscara, não encontrava lugar; era tão disforme daqueles rostos de meus antigos concidadãos nobres.

Para meu espanto, se posso chamar assim, percebi que aquela máscara não tinha olhos, nem nariz e nem boca – não tinha face. Mas, era o meu pensamento corporificado; onde o que refletia não tinha razão de ser. A máscara busca e consegue exercer o seu papel, isto é, ocultar a Verdade, aceitando o meu pensamento desorganizado e sem direção. O norte não era Norte e nem o sul era o Sul; o verdadeiro não dizia mais o que era Verdade; tudo era uma farsa. Tudo mostrava o lado de fora da máscara e, deste lado, tudo era incompreensível, sem causa e sem efeito. Era como um barco sem remo, sem vela e sem leme; tudo era sem rumo, onde somente o vento soprava, sem saber de onde veio e nem para onde vai.

Eu me encontrava no vazio do nada. Foi neste lugar que vi surgir da minha mente, um ser igual a mim, sem rosto e sem forma, pois, o que era verdadeiro ficara no outro reino, bem atrás da outra máscara.

 

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Fim

 

 


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