IDENTIDADE - CAPÍTULO 1

 

Durante a noite ele sonhara e ao acordar, virou para o lado para contar o sonho à mulher, mas não havia mulher alguma; estava novamente sozinho na cama. Tudo não passara de um sonho dentro de outro sonho. Além disso, se deu conta que as palavras seriam objetos inúteis para descrevê-lo. Ainda ficou um tempo deitado, prolongando a boa sensação que o primeiro sonho lhe fizera experimentar.
Quanto à mulher que já não mais estava lá, Salomão é que estava certo quando disse que é melhor é acordar numa casa vazia, do que com uma mulher que provoca briga e discórdia.
      Olhando para a janela, o céu anunciava um dia como outro qualquer. Depois da chuva o ar estava limpo e o sol fazia-se sentir mais fortemente. A não ser por isso, podia-se antecipar um dia arrastado e cheio daquelas mesmas obrigações que formavam a rotina de sua própria vida, sem se importar com os acontecimentos no mundo exterior a si mesmo. Estavam além de suas possibilidades.
      Ainda voltado para seu interior sonolento, Alves levantou-se de má vontade e olhou para o relógio que marcava seis horas. Teria que estar no trabalho somente as oito, mas há algum tempo não conseguia dormir bem e preferia levantar a ficar rolando na cama, presa de outros pensamentos que não queria pensar.
Esfregou o rosto com as mãos, estendendo o movimento até os cabelos com toques de cinza; ainda ficou por um breve momento com a cabeça entre as mãos e os cotovelos apoiados nas pernas.
Apesar de haver assimilado os padrões e valores sociais nele incutidos desde a infância, nada dava a perceber uma mente que refletia intensamente sobre eles, questionando-os à procura de uma lógica que os justificasse.
      Alves era um indivíduo de pouco mais de metro e oitenta, de pele clara, rosto simétrico e seus olhos eram ajudados por lentes para enxergar o mundo.  Sua magreza era ressaltada pela sua altura.
      Sobre o fogão ainda se encontrava a frigideira com a gordura que  usara na noite anterior. Acendeu o fogão para fritar dois ovos. E, resultado de uma rotina matutina, sentara-se no banquinho à mesa e pôs-se a passar manteiga em duas fatias de pão.
Enquanto realizava este ritual, seu pensamento foi levado a paragens não muito agradáveis. Recordou que na noite anterior pedira dinheiro emprestado ao Miguel, prometendo pagar no final do mês. Não era a primeira vez que fizera aquilo. Apesar de sempre recriminar-se no dia seguinte, depois de passado o efeito da bebedeira, voltava a repetir tal e só servia para alimentar o seu inferno.
     Alves não era uma pessoa orgulhosa, sabia muito bem que a ciência e a inteligência do homem jamais alcançariam o infinito ou o absoluto. Além disso, seria muito difícil para ele ser orgulhoso, porque não era o que se poderia chamar de uma pessoa bem sucedida materialmente e, assim, ele procurava fugir desse sentimento sob a capa da humildade.
Ele percebia as contradições em seu modo de ser. Era pobre e pobre não pode ser orgulhoso. Afinal, orgulhar-se de quê? Sabia que era uma pessoa com uma inteligência acima da média, porém, numa sociedade em que é valorizado o ter posses materiais, o que a pessoa “é” não conta, a não ser que aquilo de imaterial que possua, seja útil para obter as coisas materiais.
      Terminada a pequena refeição, preparou-se para a ginástica. Ele acreditava que através da atividade física descarregava o excesso de energia, acumulada com os dissabores pelos quais passava num mundo cheio de mazelas. Assim, em dias alternados, ritualisticamente, fazia sua catarse.

Após os exercícios e depois de tomar bastante água, entrava no chuveiro, onde o resto da sujeira escoava pelo ralo. E, como sempre fazia, vestia-se e saía para o trabalho. Todas as suas manhãs eram assim. Quando algo inesperado acontecia, alterando essa rotina, todo o restante do dia ele passava irritado e de mau humor. Assim acreditava, assim acontecia.
     Caminhava pela calçada em direção ao seu emprego. Detestava aquele lugar, detestava as pessoas que ali trabalhavam com ele.
Quando seus pais morreram, fora obrigado a vender a casa em que morava e alugar um apartamento menor. Dada à situação financeira em que ficara, parou os estudos. Antes, empregava todo o seu tempo entre a universidade e a leitura compulsiva de livros, sobre os mais variados assuntos. Se o destino houvesse esperado mais um pouco, esta narrativa seria bem diferente. Assim, privado de uma aspiração maior e tendo que trabalhar como qualquer um para ganhar o pão de cada dia, viu-se em um canto de escritório, digitando textos jurídicos. Não poderia haver um lugar mais inadequado para um intelectual. A morte de seus pais, de uma maneira acidental, abalara de forma profunda a sua vida, alterando seus planos.
      Ao mesmo tempo em que procurava libertar-se das figuras dos pais, numa tentativa de afirmar-se como indivíduo, não conseguia ver o mundo com outros olhos, acostumado que estava a depender dos pais para tudo. Não demorou a configurar-se um quadro melancólico e desde então, sua vida seria uma luta constante para encontrar-se consigo mesmo.
      Pode-se pensar que nosso herói não tivesse fibra. Porém, há certas particularidades que ocorrem na vida das pessoas que não podem ser ignoradas, antes que se possa fazer e formar um juízo.
Em primeiro lugar, a criança ao nascer nada conhece do mundo. Inicialmente é uma massa de tecidos vivos que reage aos estímulos internos e externos, de naturezas bioquímica e física, respectivamente. Através do contato com as pessoas que lhe estão mais próximas, isto é, através das reações, comportamentos e atitudes delas é que a criança interpreta o mundo que está vendo pela primeira vez.
Ao cabo de algum tempo estará interagindo com o mundo exterior, utilizando-se do modelo aprendido como guia para seu comportamento. Na verdade, trata-se de um padrão a ser repetido; não foi criado por aquele recém-chegado ao mundo, mas sim, dado a ele.
Nesse sentido haverá sempre uma discrepância entre a maneira como seu organismo deve e como deseja se comportar, seguindo seus instintos. Mas tal ainda não é percebido como um conflito, porque ainda não existe nele a capacidade para fazer um julgamento. No início, o organismo procura adaptar os acontecimentos percebidos dentro do modelo que lhe foi dado. Enquanto a criança sente-se segura e amparada pelos pais, ela consegue manter-se equilibrada, embora seu organismo já esteja, naturalmente, manifestando uma reação antagônica, por estar sendo obrigado a dar respostas inadequadas, isto é, contrárias aos seus desejos naturais. Isto somente se manifesta quando ela já está se relacionando com outras crianças que, da mesma forma que ela, vive segundo seus contextos próprios, também dados a elas por seus respectivos pais.
Mas o conflito só se manifesta com toda sua intensidade, quando ela começa a frequentar a escola.

 

Continua...

 

 

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