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IDENTIDADE - CAPÍTULO 04

NO HOSPITAL

 

A chamada “Ala de Psiquiatria”, para a qual Alves fora encaminhado, era mais uma designação técnica do que real.
Em virtude das precárias instalações daquele hospital público, tratava-se de um grande salão, separado por meias paredes, onde ficavam outras enfermarias, com outros internos. Ali, não havia uma efetiva separação dos pacientes. De um modo geral, os pacientes ali internados, iam dos pouco aos muito perturbados, tal como ocorre entre os chamados mais ou menos normais, encontrados na sociedade, fora daqueles muros.
Mais afastado, próximo à porta e separado por um biombo, era o lugar onde ficavam as enfermeiras e os medicamentos.
Alves ficara numa das enfermarias, onde somente três camas estavam ocupadas. Era um cômodo relativamente grande, com janelas altas e duas filas camas de cada lado. A de Alves ficava ao fundo e no canto, de onde ele podia descortinar todo o ambiente.
Mas, não se preocupou em saber quem eram os outros internados.
      Na verdade, o que ele sentia mesmo, era um grande alívio, pois, mais uma vez, sentia-se a salvo, embora não soubesse do quê. Deixou-se ficar deitado, pensando em tudo que acontecera nos últimos dias e em como havia enganado a todos. Seus pertences encontravam-se sobre a mesa do lado direito de seu leito.
Assim, sentindo-se em segurança, acabou adormecendo.
Na verdade, o que ele sentia mesmo, era um grande alívio, pois, mais uma vez, sentia-se a salvo, embora não soubesse do quê. Deixou-se ficar deitado, pensando em tudo que acontecera nos últimos dias e em como havia enganado a todos. Seus pertences encontravam-se sobre a mesa do lado direito de seu leito.
Assim, sentindo-se em segurança, acabou adormecendo.
Quando acordou, a dia já ia alto e uma claridade tomava conta de todo o ambiente; e de sua mente também. Nunca se sentira tão lúcido e despreocupado. Aos poucos, à medida que o dia transcorria e a noite ia chegando, se deu conta que não teria feito qualquer diferença se ele tivesse levantado da cama ou não, pois ninguém aparecera até àquela hora. Tudo estava como no dia anterior.
A este pensamento, sem saber por que, não pode deixar de rir e levantando a cabeça, esperando encontrar todos olhando para ele, tudo continuava como antes. Então, riu outra vez, e mais outra e, assim, riu mais alto ainda. Finalmente, já cansado, deitou de costas na cama com os olhos fechados.
Subitamente, foi segurado fortemente, ao mesmo tempo em que sentiu uma picada no seu braço e, logo em seguida, viu-se novamente livre.  Então, outro tipo de sono veio matar o seu riso.
O silêncio voltou a ocupar o seu lugar na enfermaria, como um paciente que um dia entrara e nunca mais sairia dali.
Quando abriu novamente os olhos, estava escuro e ficou sem saber se havia sonhado ou se era a noite do mesmo dia ou outra noite novamente. Só a dor da picada no braço, lhe dizia que algo havia  acontecido.
Sentindo-se confuso viu sobre a mesinha de cabeceira uma bandeja com comida, agora já fria. Não lembrava quando comera da última vez e estava com fome. Recostou-se na cama e comeu ali mesmo.
Aos poucos, foi se recuperando e já se lembrava do dia em que ali entrara, embora não soubesse há quanto tempo; achava que fora no dia anterior; mas não tinha certeza.
E foi pensando no que lhe acontecera, que voltou a se sentir como antes. Sabia que não estava mais lá fora, mas, também sabia que era a mesma pessoa. Mudara apenas de lugar. A única coisa que não mudara era o seu pensamento.
Encolheu-se na cama, tapando-se com a coberta, como uma criança com medo dos monstros que poderiam sair do armário, onde estavam trancafiados.
      Dormiu e acordou várias vezes, sem sair de seu leito, presa de sonhos com imagens desconexas. Nunca vira alguém trazer a comida, embora ao acordar, encontrasse a bandeja com comida  sobre a mesa. Era só esticar o braço, pegar e comer.
Além disso, só lhe restava o conforto trazido pela segurança que sentia sob as cobertas, entregue a pensamentos que parecia terem vida própria e que não cessavam, surgindo de algum lugar, como cometas rasgando o vácuo do infinito de sua mente.
Afinal, de que serve o pensamento? Servia para levá-lo de um lugar para outro, independente de espaço e tempo ou qualquer outra coisa. Se vamos pescar próximo à margem, por que ter um barco? Mas, tendo um barco, por que pescar na margem? Assim, tal como o barco, o pensamento não era para as beiradas das águas, mas para as águas profundas. Para a superfície existiam os cinco sentidos. Logo, pensar superficialmente não era a tarefa a que estava destinado o pensamento. Não é a melhor qualidade que possui um veículo de transporte.

O pensamento, visto como um veículo, pode nos levar a lugares nunca antes conhecidos; basta que esteja habilitado para isso, isto é, deve estar bem equilibrado e equipado,  para que possa levar e trazer o viajante em segurança.
Alves sentia-se bem no mar de seus pensamentos; podia ir por seus caminhos, livres das fronteiras físicas. Buscava harmonia e não desavença. Aí então, por sobre suas águas, podia conhecer a enorme variedade de vida existente em todo o universo. O desconhecido não é perigoso, perigosa pode ser a maneira como cada viajante vai para ele. Alguns lutam para ir e outros para ficar. Os que vão, devem abandonar-se ao fluir do seu compasso.
Mas aonde e a quem irei eu? – Perguntava ele a si mesmo. Quem ouvirá meus pensamentos? Às massas populares? Não, a massa apenas obedece a regras. Seus pensamentos devem dirigir-se àqueles que criam as regras e delas se servem para manipular as massas, segundo seus próprios interesses. Mas, como chegar ao lugar onde moram seus interesses?
Moram em suas consciências; é delas que se originam seus sentimentos egoístas. Será isto possível? E por que mudariam as regras de um jogo em que estavam ganhando?
A quem irei eu? Quem são eles e onde podem ser encontrados. Acaso seriam os políticos, os reis, os religiosos, os presidentes, os filósofos... São tantos!
Com tais pensamentos, a noite e o sono voltaram.
Não sabia ele que quando acordasse, no dia seguinte, a resposta às suas indagações, estaria aguardando por ele.

 

Continua...

 

 


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