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IDENTIDADE - CAPÍTULO 05

SOBRE A NORMALIDADE

 

Naquela manhã, acordados de seus sonos, repletos de sonhos e delírios, os pacientes deambulavam pelas enfermarias, entregues a seus mundos secretos.
No alto de uma das paredes das enfermarias, um aparelho de televisão despejava as notícias, nem sempre isentas, do que acontecia no mundo, porém, eram sempre as mesmas.
Porém, uma estranha, quase inconcebível e terrível aura de otimismo envolviam todas aquelas notícias formadas de afirmações enojadas, revoltantes, chocantes, formando um pacote amarrado com um belo laço de fita, que dizia que tudo estava indo muito bem pelo mundo fora e que ninguém precisava se preocupar.
Agora, com tempo à vontade, o pensamento de Alves viajava para muito além daquele vômito ininterrupto. A urbanização proporcionara aos seus cidadãos a mecanização e a racionalização de suas tarefas, e levando a padronização ao extremo de seus lazeres. E, acima de tudo e de todos, sorrateiramente, imiscuía-se e imperava o cinismo.
Alves sabia que o ser humano natural não era assim, pelo menos quando falavam uns com os outros, pois, de suas bocas, saiam palavras de amor, alegria, harmonia, paciência com que se suportam contrariedades e dificuldades, mostrando-se homens de índole boa e de bom caráter; benévolos, bondosos, sensível aos males do próximo e naturalmente inclinado a fazer o bem; diz que age ou pensa desinteressadamente, com vistas a servir alguém ou a encarnar um ideal, o respeito pelo próximo, a ausência pela agitação, de pressa, de inquietação, de ferocidade; a presença de serenidade, tranquilidade, brandura e de domínio próprio.
Um ser humano assim, tão diferente do que se via no dia a dia. Era como se algo, no seu interior, o impedisse de fazer o que dizia e queria...
Contrariando tudo isso, o que se via pelo mundo, eram os homens confundirem liberdade com libertinagem, falta de pudor, sensualidade exagerada, admiração exagerada às coisas materiais, falta de amizade, contenda obstinada de palavras, ciúmes, intenso sentimento de ódio, desentendimento, desavença, falta de concordância, grupos antagônicos que disputam a supremacia política, o ódio e desgosto que é provocado pela felicidade e prosperidade de outrem, jovens entregues às drogas, para fugirem à contemplação de um mundo assim; uns comem em excesso e com avidez e outros passam fome e coisas semelhantes. Deixando-se possuir de convencimento, nem sempre fundamentado na realidade, dos próprios méritos, qualidades ou talentos.
Porém, tais mensagens, longe de desanimar e acreditando que a solução acabaria surgindo, Alves decidiu começar a escrever cartas que enviaria quando chegasse a hora. Foi assim que Alves iniciou seu dia, desde que acordou. Depois de pegar papel e lápis entre os seus pertences, empurrou a mesinha até próximo à janela e deu início a suas investidas contra o que ele considerava os absurdos desta sociedade humana, dirigida por seres que se diziam os benfeitores da humanidade. Assim ele passaria o dia inteiro.
Prezados Senhores.
Por que excluímos um tipo ou vários tipos de pessoas? Estou falando das pessoas internadas nos manicômios do mundo. A resposta tradicional é que não são normais. Ser normal implica em expressar-se dentro de um limite; ser normal é você andar sobre os trilhos do trem e nunca sair deles porque se sair, o trem pega. Não deveria pegar justamente quem estivesse andando neles?
Podem vocês, profissionais de saúde, tornarem-se imunes aos sentimentos de um paciente? Existem regras sobre como fazer isso? São válidas, isto é, são verdadeiras? Devem evitar uma relação mais próxima, se for para o bem do paciente? O envolvimento pessoal impediria e desqualificaria um diagnóstico?
      Penso que seja uma questão de ponto de vista. E, antes que tratemos disso, uma coisa precisa ficar estabelecida como ponto fundamental e sem o qual tudo o mais não fará sentido.
Parágrafo único:
Tudo aquilo que for feito, deve interessar somente ao paciente e ao seu bem estar, contribuindo para o restabelecimento de sua saúde. Uma vez estabelecido este parágrafo, já podemos elaborar algumas considerações.
A necessidade de viver em grupo obriga a sociedade a excluir aqueles que não podem acompanhar as normas estabelecidas e que a cada dia que passa se tornam mais numerosas e específicas – embora não seja percebido – e, portanto, cada vez mais difíceis de serem seguidas.
      A normalidade é estabelecida socialmente e para um dado momento que, embora se altere a cada instante, somente pode ser visto de um ponto de vista histórico, isto é, do futuro. Se assim é, creio que está fora do nosso controle o estabelecimento e a determinação do conceito de normalidade, embora ele se estabeleça sempre, como tendo vida própria. O que não é correto é o homem querer determinar, com régua e compasso, o que é a normalidade, o que é ser uma pessoa normal.
      Se observarmos mais de perto, deparamo-nos com a existência de dois tipos de normalidade: a natural, própria ao animal humano e outra que é aquela criada pelo homem. A natural é mais tolerante, mais elástica... Mais humana. Já a outra não tem elasticidade, é intolerante e, por isso, podemos dizer que não é humana, do ponto de vista natural. E, portanto, não atende ao estabelecido no Parágrafo único.
      Isto existe realmente ou tudo não passa de um raciocínio conduzido pela mente doentia de um paciente, pode-se perguntar. Acho que sim, isto é, acho que sob a visão da normalidade criada eu sou um paciente. Porém, sob a visão da normalidade natural, posso dizer que sou uma pessoa saudável. Trata-se do conflito entre dois pontos de vista, estando um deles em desvantagem. Nada mais do que isso - maioria e minoria - e esta em vantagem.
     E como estou, através desta carta, levando tal questão à apreciação dos senhores, é porque consigo ordenar meus pensamentos e transcrevê-los... E como estou, através desta carta, levando tal questão à apreciação dos senhores, é porque consigo ordenar meus pensamentos e transcrevê-los I  e mais, se estou sendo entendido por qualquer um dos senhores, é porque sou uma pessoa mentalmente sadia, apesar de minha posição ser inconveniente para muitos. E não nos esqueçamos de que intelectual não é maluco, é excêntrico. Loucura é para o pobre e miserável. Claro que isto é mais do que uma piada. É um caso sério – muito sério mesmo! Duas normalidades! Não é esquisito isso? Na verdade, é uma loucura!
      Se acompanharem meu raciocínio sobre a existência de duas realidades, acredito que posso continuar a falar às suas mentes científicas. Pois bem, se existem duas normalidades, somos obrigados a concordar que uma delas é falsa. Não existem duas verdades.
Porém, se não concordam comigo, isso ocorre por dois motivos – um ou outro: ou não sabem ler corretamente os símbolos da escrita e por isso não conseguem entender o que escrevo ou, então, eu é que não estou sabendo usá-los de forma a ser entendido. Usei este exemplo radical, para ser enfático.
      Realidade é aquilo que se nos apresenta e afeta a todos, indiscriminadamente, sem exceção. O que é diferente é a maneira pela qual cada um reage ao se colocar diante dela. A realidade criada é aquela que não aceita o diferente. É exigido a todos que reajam da mesma maneira ou da maneira mais próxima possível, desde que aceitável.
      Penso que aquele que escreve deve conhecer bem as regras gramaticais, porém, acho que a atenção exagerada a ela limita o homem e depois de algum tempo, aquele que assim o faz, deixará de comunicar seus pensamentos, somente porque não pode ou não consegue dizê-los dentro deste espaço gramatical, que faz com que a palavra, para ser útil, deva ser sinônima do pensamento. Caso contrário, estaremos agindo verbalmente de maneira automática e a pessoa nem sequer saberá sobre o que está escrevendo – na verdade, virou um autômato!
     É um quadro triste, não é? Duas Normalidades, duas Realidades... Isso não me sai da cabeça e não gosto do que vejo. A falsa é perniciosa e responsável por todos os males humanos. É preciso removê-la!
Ao levantar da cadeira onde estivera escrevendo, seu ombro chocou-se com o queixo daquele homem que estava à suas costas, provavelmente lendo o que ele escrevia. Apesar de embaraçoso, aquele homem não deu mostras disso. Antes, endireitando o corpo, permaneceu em pé olhando para Alves e não demorou em falar.
- Não repreendas ao escarnecedor, para que não te odeie; repreende ao sábio, e amar-te-á. – Disse o homem, de modo solene, citando uma passagem que Alves reconheceu como sendo bíblica.
      Mas, não se pense que o comportamento de Alves não era acompanhado pela equipe médica do hospital. Ignoramos até agora como conseguiam isso. No entanto, tudo o que ele fazia era anotado em seu prontuário pelo psiquiatra designado para acompanhar seu caso e determinar qual seu grau de sanidade mental. Se tivéssemos acesso a tais anotações, leríamos o que se segue.
“O paciente se entrega à escrita, apresentando conteúdo racional com notável abundância. Observamos em seus escritos o desenvolvimento de uma personalidade com ideias delirantes e paranoicas, embora de curso de raciocínio ordenado e de maneira compreensível, porém, desmedida, fantástica, descontrolada e não raramente contraditória. Não notamos até esta data vivências mórbidas, apesar de seus escritos serem constituídos de ataques dirigidos a instituições e autoridades em geral.”
“Quanto à sua influencia sobre os demais pacientes, devem ser analisados e observados, de forma detalhada, todos os aspectos de seu relacionamento com eles. Aconselhamos o acompanhamento do desenvolvimento cognitivo através de testes regulares, para que seja determinada a necessidade de indicação de medicação em seu tratamento. Sua participação na Terapia de Grupo é necessária. Até o momento o paciente não apresenta nenhum risco.”

 

Continua...

 

 


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