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IDENTIDADE - CAPÍTULO 06

DIREITO DE EXPRESSÃO

 

 Alves acreditava que cada ser humano, por ser único em sua individualidade, é capaz de sozinho satisfazer a si mesmo, sem a necessidade de receber de fora coisa alguma. É absolutamente pleno e autossuficiente.
Assim, em suas conjecturas, percebia que querendo ser uma pessoa assim, deveria ter o cuidado de não se deixar enganar quando diziam que o homem depende de tudo e de todos.
Portanto, era com reservas que ele via como uma verdade quando diziam que o ser humano tem de viver em sociedade, a fim de participar dos bens que são indispensáveis à vida;
de que tem que haver reciprocidade entre os homens se não quiser esvaziar-se e aniquilar-se em solidão.
É pela troca que precisa viver: aprendendo, ouvindo, compreendendo e criando novidades, para poder participar da espiritualidade social, o que, fora do grupo, jamais alcançaria. Alves não aceitava gratuitamente tudo isso.
Ele achava que todo contato com o mundo exterior, tem a potencialidade de resultar em limitações, inibições e colisões de interesses.
 Por outro lado, o ser humano como ser único que é, consegue preservar seu espaço próprio, e aceitando esse mesmo direito ao outro, ele consegue viver plenamente, ao invés de dispersar-se na infrutífera união de contrastes que se excluem mutuamente.
É claro – pensava ele – que no caminho ocorrerão conflitos. Conflitos com a comunidade, com os outros indivíduos e, principalmente, com ele mesmo.
Estes conflitos podem se transformar em falhas, e até em derrotas e limitações das possibilidades existenciais. Ele sabia disso.
Mas, também sabia que era perfeitamente possível que originassem vivencias mais profundas, que se desenvolveriam para o bem de cada um e de todos de uma forma sadia e benéfica, diferente da constante competição egoísta em que se vive, e onde cada um só procura os próprios interesses, desde que tenha alcançado o poder para isso.
A Humanidade está podre e cheira mal. É preciso mudar o foco.
E era por pensar assim que ele deu início à outra carta, dirigida à Comissão de Direitos Humanos da ONU.
Prezados Senhores.
O que acontece com a atividade mental do indivíduo, quando privado da liberdade de expressão?
A ciência psicológica nos afirma que a atividade mental fica seriamente prejudicada, porque a elaboração do pensamento não ocorre de modo natural.
Por outro lado, o indivíduo que consegue falar livremente, organiza seu pensamento e consegue desenvolver sua capacidade mental, de tal forma que pode encontrar a melhor maneira de viver.
Isso acontece igualmente com o povo. Na medida em que cada indivíduo expressa seus pensamentos no grupo – pensamentos que lhes são próprios e únicos –, chega-se mais facilmente a um consenso do que é melhor para este mesmo grupo. Além de ser uma maneira de reduzir o egoísmo, que é próprio do ser humano.
Quando a massa popular é levada por um caminho que não escolheu, forçoso é concluir que alguém escolheu para ela.
Ora, caríssimos pastores de rebanho, a realidade verdadeira é transcendente ao homem, está além de suas pequenas meias verdades. É somente através dos diferentes pontos de vista, de cada um dos indivíduos, que se pode pretender chegar mais próximo da verdade.
Não consigo imaginar um único indivíduo iluminado, dentre os meus iguais, que possa arrogar-se o direito de ser “O” guia dos homens para uma vida melhor, a despeito de sua boa intenção.
Quando o caminho a seguir pelo povo é escolhido somente por alguns indivíduos, forçosamente cairá no egoísmo que se caracteriza por só interessar a estes poucos, embora este mesmo egoísmo não os deixe perceber isso.
Saibam os senhores que, se necessário for, o povo lançará mão - mais dia, menos dia – de todos os meios disponíveis, para assegurar esse intercâmbio de ideias. Não titubearão - estai prevenidos!
A resignação de um povo é sempre por um espaço limitado de tempo, e não mais. O espírito acomodatício ante os acontecimentos é passageiro. Um dia ele se remexe e sacode de si o jugo. Esta é a origem das revoluções e das guerras!
Um povo que não consegue expressar-se é um povo deficiente, é um povo sem inteligência, e sempre dependente. Não se desenvolve por carência de estímulos para fazê-lo. Pensai nisso, senhores!
Mas, não devemos nos espantar com tais pastores, que confundem o cuidar do rebanho, com conduzir o gado. Sempre haverá pastores, não restam dúvidas, mas – graças a Deus -, também haverá cabeças de gado que se sobressaem e se afastam do rebanho e ensinam a outros que estão na manada. 
E mesmo que sejam fuzilados, nunca serão exterminados; outros sempre haverão de surgir!
É através dos veículos de Comunicação que eles podem falar. Por isto é, que os líderes devem garantir a existência e o acesso livre a tais meios, e cuidando para que tenham sempre suas portas abertas, a todo e qualquer indivíduo que queira expressar suas ideias e seus pensamentos, indiscriminadamente.
 
Atenciosamente,
João Alves Firmino da Silva.

 

Continua...

 

 


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