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IDENTIDADE - CAPÍTULO 07

O VELHO

 

 Ao levantar da cadeira onde estivera escrevendo, seu ombro chocou-se com o queixo daquele homem que estava à suas costas, provavelmente lendo o que ele escrevia. Apesar de embaraçoso, aquele homem não deu mostras disso. Antes, endireitando o corpo, permaneceu em pé olhando para Alves e não demorou em falar.
- Não repreendas ao escarnecedor, para que não te odeie; repreende ao sábio, e amar-te-á. – Disse o homem, de modo solene, citando uma passagem que Alves reconheceu como sendo bíblica.
- Mas o sábio não necessita de repreensão – respondeu Alves.
- Se queres falar ao homem desta época dominada pela ciência, utiliza a linguagem usada por eles. Aí então, pode ser que eles o ouçam. Oferece tua experiência aos outros, mas de uma maneira que eles possam entender e, talvez, aceitar. A linguagem persuasiva atual é a científica – falou o homem velho.
- Sim, concordo, porém, nem todas as descobertas são passíveis da utilização de tal linguagem; será que não ouvirão? – Disse Alves.
- Não. – O velho respondeu de maneira incisiva.
- Sei que através da ciência o homem evita muitas ilusões, mas acontece que seu tempo de vida é tão pequeno que não poderia evitar todas. Deve haver outra maneira de não se iludir. Será que algum dia existirá uma geração sem ilusões? – Disse Alves.
- Cada época possui o seu critério de verdade e o modo de chegar até ela. A época atual tem o seu – falou o homem velho, como quem tendo autoridade no assunto.
- Sim, há razão nisso que falas. Na necessidade de falar aos cientistas sou levado a elaborar meu pensamento dessa forma para ser entendido por eles... – disse Alves, pensativo.
- Não somente aos cientistas, mas também ao homem comum que tem o seu apoio e nela coloca sua segurança nas verdades científicas – falou, interrompendo Alves.
- Sim, é isso. – continuou Alves. Trata-se apenas de uma necessidade histórica momentânea o fato de se utilizar a linguagem científica para demonstrar a verdade, pois ela é atemporal, não é limitada por construções sintáticas.
- Não tenho dúvidas quanto a isso e vejo que você também não as tem. Porém, a natureza humana tem necessidade de viver e se movimentar dentro de um espaço conhecido e que tenha a aparência de estável, para oferecer segurança aos seus atos dentro de limites conhecidos. Tudo o que foge a isso, é excluído por ela – disse o velho, sorrindo.
Só então, espantado, Alves deu-se conta de onde estava e de que aquele homem velho e barbudo era um louco. Mas, como – pensou – ele pode ser louco e falar palavras sábias ao mesmo tempo? Alves não teve tempo para disfarçar esse pensamento.
- Sei o que estás pensando. E por isso vou revelar algo que não sabes: eu li todas as cartas que escreveste, e não somente eu, mas também todos aqueles que, de uma forma ou outra, estão interessados no que andas fazendo desde o dia em que entrastes aqui. Mas isso não é importante. O importante é que nas cartas, dizes coisas que contradizem o pensamento que tivestes a meu respeito, enquanto indivíduo que sou. Mas não se envergonhe por isso. Antes, aprende mais uma coisa: isso acontece tanto ao homem que busca o conhecimento como ao que não o faz. A diferença está em que o sábio sempre aprende com seus erros e suas contradições. O homem que busca o conhecimento encontrará um caminho cada vez mais seguro. Na verdade, ele caminha para trás, na esperança de algum dia poder olhar o mundo com os olhos sem as lentes que lhe foram colocadas, desde os primeiros dias após o seu nascimento. Ele luta para se ver livre de tudo aquilo que aprendeu sem querer aprender. Ele sabe que só então, poderá começar a conhecer – concluiu aquele homem velho.
- Sinto muito, mas não pude evitar este pensamento. Concordo sobre o que disseste sobre aspirar ao conhecimento. O homem deve separar os conhecimentos que lhe são úteis e ordená-los para evitar a ilusão e o sofrimento. É grande a bagagem de experiências que ele deve adquirir. É uma obra de longa duração e persistência e, sobretudo, de confiança em si mesmo e, ao mesmo tempo, também de uma dose de desconfiança em seu raciocínio e, igualmente, em seu julgamento. Os homens já deviam nascer com mais de oitenta anos, se me entende – disse Alves.
- E qual seria a primeira condição – perguntou o velho – que deveria atender àquele que busca o conhecimento?
- Penso que se um homem quer descobrir a verdade, quer ser o explorador do seu caminho ele deve, em primeiro lugar, abandonar seus amigos... – disse esperando ser interrompido.
- Mas, por quê? – Disse o Velho.
- Porque são justamente eles que sugam as energias das quais o explorador de si mesmo necessita para tal empreitada. Para conservar os amigos, é necessário abrir mão de muitas, senão de todas, as tuas opiniões; é preciso ser cordial e amável e isso toma muito do seu tempo. Assim, não tenha compromisso com outro além de você mesmo. É isso, em poucas palavras, o que eu penso. – disse Alves.
- Não sei se entendi perfeitamente... – Disse, como que esperando Alves completar sua resposta.
- Já experimentaste dizer não a algum de seus aos amigos? – perguntou Alves ao velho e como não houve resposta, continuou.
– Não?! Experimenta, então. Verás que não eram do tipo de amigos que esperava que fossem. O preço que um homem deve pagar para ter amigos é o de estar sempre de acordo com eles... Deve mentir para si mesmo... Os amigos não perdoam aquele que decidiu, para seu próprio bem, caminhar por outro caminho, ouvir o rufar de outros tambores. E sabe por quê? Porque isso implicaria em aceitar que estão no caminho errado e isso, nunca admitirão! – Disse Alves, num tom de voz diferente.
- Então, continuou Alves, encontram no comportamento da massa uma consolação e uma parceria para condenar aquele que os abandonou ao resolver procurar seu próprio caminho. É tido como ingrato ou louco. Mas este louco sabe que procurar o conforto e a segurança no convívio com a maioria, adotando seus costumes, é um desperdício para sua própria vida. Por outro lado, ser corajoso para dizer não, é uma virtude que poucos alcançam. A coragem é necessária para o homem que está fora da massa conformista. Ao alcançar seu objetivo, não precisará nem desses amigos e nem da massa.
- Fico contente de poder conversar com você, sendo tão longos os dias aqui. – disse o Velho.
Por ser particularmente sensível e propenso a sentir desconfiança, ele não se conteve e disse:
- Não devemos falar todo o tempo e nem falar tudo que sabemos, porque não restará nada mais a dizer no momento seguinte. O afastamento na solidão é necessário à descoberta de novos conhecimentos. Eles vêm e vão como as marés... Devemos ser suficientemente razoáveis e humildes para poder perceber quando é uma e quando é outra. – completou Alves e afastou-se daquele homem, indo novamente sentar-se na cadeira, retomando sua obrigação para com a Humanidade.

 

Continua...

 

 


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