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IDENTIDADE - CAPÍTULO 08

TERAPIA DE GRUPO

 

 

Segurando o lápis, Alves ficou a olhar através das grades da janela, parecendo querer ver além, muito além do que os olhos podem ver. Em sua mente ainda estava a conversa que acabara de ter com aquele homem desconhecido, embora ele já estivesse na enfermaria quando Alves ali chegou.
Alves distraia-se com seus pensamentos. Estarei louco ou caminhando para isso? – Perguntava-se. Será que é loucura acreditar que a melhor maneira de viver está além das coisas percebidas somente pelos cinco sentidos? Uma vida plena encontra-se além dos cuidados diários da vida comum e a ela só têm acesso àqueles que almejam o verdadeiro conhecimento, o maná dos céus. Ela não carece das preocupações que infestam o viver comum. Somente aqueles que a alcançam podem ver claramente o caminho real. Mas, que caminho é esse? – Ficava a se perguntar. Para ele, pensar era um exercício como outro qualquer. Este caminho leva à vida que o homem está destinado e o não viver dessa forma é querer enganar a própria natureza. O homem não nasce para viver de maneira superficial, tal como a maioria das pessoas vive. O homem existe para uma vida à altura deste mundo maravilhoso e que só existe por sua causa.
Enquanto nosso herói se entregava a tais reflexões, chegaram nuvens pesadas anunciando uma tempestade. Toda enfermaria estava silenciosa e quem tivesse olhos de ver, perceberia sobre cada uma das cabeças de seus companheiros, pequenas nuvens e, dentro delas, figuras que se moviam. Eram os sonhos daqueles homens que talvez nunca viessem saber por que haviam nascido. Saídos da prisão do ventre para uma realidade prenha de liberdade. Mas, para dela usufruírem deveriam nascer outra vez, desta vez de dentro de outro ventre, não depois de nove meses, porém após um tempo necessário e indeterminado, cuja duração só depende de cada um para que suas vidas não terminassem antes de a terem vivido.
Chovia. Finalmente chovia e caia silenciosa e docemente, contrariando o que as pesadas nuvens pareceram anunciar. Junto à janela, ele estendeu a mão através das grades e pode sentir os pingos gelados que a tocavam, despertando um sabor de vida. É um toque de revida - pensou ele -, o cheiro da terra molhada, fruto do encontro dessas duas partes de uma mesma natureza. E naquele momento sentiu que todas as coisas eram vida e alegria. Como podiam as pessoas não gostar dos dias de chuva? Dizem que atrapalham suas atividades. Chuva e sol, obrigado Eterno Deus!
Era uma terça-feira. Como acontecia sempre naquele dia da semana – Alves soubera depois -, todos os pacientes eram reunidos. Seria o primeiro contato dele com os internos das outras enfermarias. Chegada a hora, Alves, o Velho e o outro paciente que quase nunca saia de sua cama, foram convidados a passarem para um salão onde já se encontravam os demais pacientes, sentados em cadeiras que formavam um círculo. Segundo fora dito, ali os pacientes tinham a oportunidade de conversar sobre assuntos que diziam respeito a cada um deles e sobre qualquer assunto que quisessem.
Segundo pensam alguns profissionais da área de saúde mental, tal atividade proporcionava ao paciente o reencontro com a realidade - julgada como perdida -, através da troca de experiências, resultando numa melhora daqueles que perderam o contato com ela. Assim eram vistos os doentes mentais mais graves e isso não impedia a confraternização com os considerados menos graves. Antes pelo contrário, ajudaria a todos. Tal como ocorre entre as pessoas lá de fora, aquela interação tinha como objetivo promover o equilíbrio mútuo entre as pessoas, fazendo com que vivessem na sociedade em harmonia.
Todos aguardavam a chegada dos médicos. Pode-se dizer que havia no ar um cheiro de tensão, se cheiro ela tivesse. Logo depois do som de uma porta que parecia ser de ferro ser aberta e fechada, dois médicos dirigindo-se ao grupo cumprimentou a todos.
Com exceção de Alves, todos já estavam acostumados com aquelas reuniões e sabiam como funcionavam. Aquele homem velho que Alves já conhecia levantou a mão, o que era um sinal de que queria de falar.
- Pois não, senhor Juvenal. – Disse um dos médicos.
- Gostaria de saber por que estou impedido de sair do hospital? – Perguntou e olhou para Alves com um sorriso nos lábios, como se fossem cúmplices.
- Senhor Juvenal – começou a falar um dos médicos -, não sei se o senhor se lembra de que veio para esta casa de repouso, trazido por seus filhos que estavam preocupados com o senhor. E como eles, em vista de seus afazeres diários não podiam lhe dar a atenção da qual o senhor precisava e que algumas vezes chegara até a reclamar, acharam que lhe faria bem se pudesse estar junto de outras pessoas. Seus filhos também relataram que, ultimamente, o senhor vinha se isolando em seu quarto e, desde então, começara a falar de coisas que não faziam sentido. Disseram também que quando eles levavam amigos em casa, o senhor os importunava com divagações que a todos pareciam sem nenhum sentido. Assim, eles atribuíram, e devo dizer acertadamente, que este seu comportamento era devido ao fato de que passava muito tempo sozinho, sem pessoas da sua idade com quem pudesse conversar. O senhor não acha que fizeram o melhor para o senhor? – Falou o médico de nariz fino e pontudo.
- Mas será pedir muito a meus filhos que me permitam viver junto deles? Será pedir muito que eles deixassem viver como eu gosto de viver e de pensar? Já estou velho demais, tenho muito passado e pouco futuro. Não tenho mais tempo para entrar e sair de hospitais ou casas de repouso, como preferir, se nem doente estou. O tempo que me resta não permite que eu deixe para depois...
- Entendo o que está dizendo, mas o senhor estava fugindo do verdadeiro motivo que o trouxe para este lugar – interrompeu o médico. Para conviver com seus filhos e amigos na sociedade, o senhor deve ver claramente o que está lhe ameaçando e lutar contra essa ameaça para eliminá-la. Vamos falar francamente, pois é para isto que estamos aqui reunidos Segundo seus filhos relataram, o senhor – fazia questão de repetir a todo instante a palavra senhor – não reconhecia mais o que era real e o que não era, porque se reconhecesse saberia que teria de lutar para vencer suas dificuldades. E o que o senhor fez, qual foi sua atitude?  O senhor preferiu ignorá-la, fingindo – talvez sem o saber – que elas não existiam. A sua defesa contra o mundo ao seu redor foi deformando-o, a fim de fugir às imposições que ele impõe a todas as pessoas. O que estava fazendo era enganando a si mesmo. – Concluiu o médico, parecendo a Alves que ele tinha estampado em seu rosto um sorriso que, apesar de quase imperceptível, era de condescendência, como se tivesse acabado de falar com uma criança que não tem maturidade para perceber a gravidade de seu comportamento travesso.
Ao julgar desrespeitosa a maneira como o médico respondera, Alves levantou a mão e começou a falar, sem esperar que lhe fosse dada a palavra.
- Neste caso, não seriam os seus filhos que deveriam estar internados e não este homem?
- Não estou entendendo o que quer dizer – disse o médico.
- Quero dizer – continuou – que não seriam seus filhos que estariam querendo fugir da realidade, quando o internaram aqui, justamente para não terem que lutar e enfrentar as dificuldades de conviver com seu alguém que não pensa como eles? Será que eles, na verdade, o que estavam sentindo era vergonha de seu pai, diante dos amigos? O senhor mesmo acabou de dizer que para vivermos na realidade, devemos ver claramente as ameaças e lutar para eliminá-las. Penso que este homem, este pai, transformara-se numa dessas ameaças para a vida social de seus filhos.
O médico fez menção de interrompê-lo, mas Alves percebeu e continuou falando.
- E o que eles fizeram? Eliminaram a ameaça? Não. Antes, a afastaram para longe, para onde não mais pudessem vê-la com frequência e, assim fazendo, iludiram a si mesmos ao acreditar que o fato de não mais estar à vista, não mais existia. Será que não foram eles que deformaram a realidade, enganando a si mesmos ao distorcer os fatos? E, neste caso, eu pergunto quem precisaria de tratamento não seriam seus filhos? – Disse Alves.
- Apreciei muito a sua maneira de falar e conduzir seu raciocínio e isso vem mostrar que o senhor está muito bem - disse-lhe o médico e continuou. Porém, há algo que o senhor não considerou e que, infelizmente, invalida tudo o que disse. É o fato de que o senhor apoiou seu raciocínio no aspecto ético e moral, quando o de que estamos falando é de um distúrbio de conduta – disse o médico, ciente de sua autoridade e poder.
- Não se trata de uma questão moral? – Falou Alves e sem esperar resposta, continuou:
 – Ora, quem são aqueles considerados como portadores de distúrbios mentais? Não são justamente aqueles que, por seu comportamento destoante, não se ajustam aos costumes da sociedade; não são justamente aqueles que inventam - dizem as pessoas consideradas normais - novas maneiras de ser, mas que, por não estarem de acordo com os padrões adotados, são alijados do convívio social? E o senhor diz que não se trata de uma questão moral?! Ora, faça-me o favor!
 Durante instantes, o cheiro do silêncio impregnou todo o salão.
- O senhor está separando o indivisível... – Alves falou. É como viver em dois planos de existências diferentes. Um deles é aquele em que está acostumado com os lidares do dia-a-dia: é a escola, o trabalho, a família, as pessoas com as quais cada um convive... E o outro, é aquele em que o indivíduo vive e que tudo o que fizer dependerá daquilo que ela quer e pensa sobre a sua própria vida. É um indivíduo e, como tal, único! E este fato nada tem a ver com as normas sociais, embora a elas esteja de certa forma, indevidamente preso. Dentre as diversas situações que se apresentam ao indivíduo, no decorrer de sua vida, ele pode ou não aceitá-las. Cabe somente a ele escolher...
As atenções de todos continuavam voltadas para o que ele estava dizendo.
- Ele pode viver mergulhado na mediocridade, em conformidade com os demais ou pode tentar ser ele mesmo e fazer o que achar merecedor de sua atenção e interesse. Fazer o que quiser fazer, desde que não interfira na liberdade do outro. A sua vida, compete somente a ele decidir como vivê-la. Somente ele deveria poder decidir o que fazer dela – Terminou Alves, repetindo as últimas palavras.
Neste momento, de outra cadeira do círculo formado, outra mão foi levantada, ao mesmo tempo em que a voz de Jesus se fez ouvir. Suas palavras ressoaram como um raio naquele salão, tal o tom vigoroso e cheio de autoridade com que foram pronunciadas; como de um profeta da antiguidade.
- Ah! Mundo cruel, geração perversa que rejeita seu irmão... Que somente não o ajuda, mas o condena. Dias virão em que desejarias ver um dos dias do Filho do homem, e não o vereis. Muitos neste dia dirão: não profetizamos nós no teu nome? A estes será dito: nunca os conheci. Afastai-vos de mim, vós todos os que praticais a maldade. Não vos conheço. Naquele dia haverá choro e ranger de dentes. Vós que oprimes o pobre, vós que vos achai perfeitos, a vós está destinado o inferno. E já o tendes. – Disse àquele paciente que quase nunca se levantava de sua cama e que dormia com uma bíblia sob o travesseiro.
Depois de passear o olhar sobre os presentes, ele falou de um modo que espantou a Alves, tal a suavidade de sua voz.
- Por muitos lugares já passei neste caminho e em todos eles meu Deus é sabedor e comigo ele vai, ensinando-me qual a verdadeira vida. Mostrando o que podia ter sido e, no entanto, não foi; o que é e o que ainda não é.
Inesperadamente, ele pôs-se a correr com os braços levantados em torno do círculo formado, repetindo cada vez mais alto:
- Glória a Deus! Glória a Deus!
Sendo incapaz de ser controlado pelos colegas e sob os olhos arregalados de Alves, acabou contido por dois enfermeiros que, segurando-o pelos braços, o conduziram para seu leito, ao mesmo tempo em que um biombo barrou a visão de todos. Depois disso, os gritos cessaram e os enfermeiros o deixaram.
Depois daquele incidente, a reunião foi encerrada e os dois médicos saíram. Os pacientes foram levados, cada um de volta às suas enfermarias. Em seguida, ouviu-se novamente o som da porta de ferro que fora aberta e fechada, separando e impondo a verdadeira diferença entre os internos e externos. Portas iguais àquelas foram inventadas para diminuir, separar e finalmente anular os indesejáveis perturbadores de seus sonos, em nome da harmonia da ordem social.
De volta à sua mesa improvisada, com o lápis na mão, Alves olhava para o corpo inerte de Jesus sobre a cama, dormindo. Naquele momento, Alves tinha o peito repleto de compaixão e a sensação de estar diante de uma nova e grandiosa verdade que, no entanto, não sabia dizer qual era. Apenas a presença indizível diante de um homem sedento, mas ainda incapaz de ouvi-la.
Mais uma vez o cheiro do silêncio se fez sentir.

 

Continua...

 

 


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