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IDENTIDADE - CAPÍTULO 09

 

O AMOR MORREU

 

Da janela, olhando para os carros e pessoas que passavam pela calçada, Alves se assemelhava a um cérebro com duas pernas, dada a sua galopante atividade mental.
Lá fora a multidão caminha, é uma massa sem rosto formada por pessoas que falam e gritam umas com as outras. Iludidos, riem e choram. Dão a vida por qualquer coisa e nessa confusão reina a incompreensão pelo mundo neste tempo sem fim.
Eram amargos os seus pensamentos e ele se dava conta disso. O que ele queria é que houvesse neste mundo um oásis de calma e tranquilidade, onde pudesse deitar a cabeça e sentir que o mundo fora feito para ele ser feliz. Sentia-se incapaz de conviver com aquelas pessoas. Deveria haver uma harmonia, mas não... O amor morreu e o ser humano está entregue às baratas; já não se pensa mais, as coisas são aceitas como aparecem e sem nenhum questionamento. Assim, já não são mais indivíduos com pensamentos próprios, se tornaram uma massa homogênea que é controlada e manipulada para servir aos interesses de uma minoria anônima. Cada ser que nasce já encontra um mundo padronizado. É a ciência sendo usada pelo poder para controlar o povo. A propaganda motivando o consumo de produtos, ideologias ou qualquer coisa que queiram. Eram os poderosos em ação! Grita o povo pelas ruas e de que adianta isso, se aquilo que reivindicam já está pronto para ser dado a ele. A massa só reclama o que eles sabem que podem dar. Eles criam simultaneamente a vacina e o veneno, mas apresenta primeiro o veneno e só depois o vacina para lucrarem com isso, dando a sensação ao povo de que foram atendidas suas reivindicações, previamente plantadas em suas mentes.
O que significa coerência? – Se perguntava e respondia. Ser coerente significa expressar comportamentos, sentimentos e pensamentos estereotipados? Não. Os sentimentos e pensamentos já não saem mais das mentes, porque já não existem indivíduos – suas mentes foram cauterizadas. O que há é a multidão como um corpo vivo. É dado a ela o que sentir e pensar, oferecidos em embalagens douradas e prontas para serem consumidas. Ser alegre é ser assim, amar é assim, politicamente correto é assim, e por aí vai. É desta triste maneira que todos procuram na conformidade a segurança, mas esta há muito fora perdida quando foram levadas a deixar a espontaneidade. Existe uma moral anônima, uma avaliação e classificação das ações humanas, previamente preparadas para o ser que nasce num mundo de pessoas que já não conseguem pensar por si mesmas. É mais cômodo assim, pode alguém pensar, mas não...  mas não Alves. Tais padrões são apresentados e tidos como expressão das necessidades de uma comunidade. É incessantemente repetido, para ser ouvido desde a infância que o bem do grupo vem em primeiro lugar e que só assim a humanidade sobreviverá. Tais eram os pensamentos que povoavam sua mente, enquanto olhava para as pessoas andando nas calçadas.
O Velho foi juntar-se a ele na janela e ficaram os dois olhando para fora. Algo aproxima as pessoas que olham numa mesma direção.
- Em que pensas? – perguntou o Velho sem desviar o olhar da rua.
- Penso nas pessoas que caminham sem saber para onde e levando com elas somente ilusões. Penso nos homens que vivem numa agitação constante e sem a paz tão sonhada, mas nunca alcançada.
Com a morte do amor, nada é mais inconveniente a um ser humano do que a presença de outro ser humano – disse o Velho e continuou falando:
- Curioso você estar pensando sobre a paz, pois, é justamente sobre ela que também estou pensando. Penso na paz que tenho ao me deixar levar pela fluidez da vida. Amo a paz que sinto como aquele que ama e se realiza naquilo que faz com amor. Somos iguais, apenas fazemos coisas diferentes. O que procuramos é o que acabamos encontrando. Busco sempre lugares calmos e onde possa me concentrar e poder ouvir o som do mundo e sentir que a Vida vale por sua totalidade.  E – continuou falando – o que me separa da multidão é algo que possuo e ela não. E por seu lado, ela também tem algo que eu não tenho. Não julgo que esta diferença entre nós seja o fato de eu pensar e ela não, pois, ela também pensa. O que acontece é que ela age mais do que pensa. De certa forma, ela vive a Vida e eu a observo – concluiu o Velho.
- E o que podes ganhar somente observando a Vida, ao invés de vivê-la? - perguntou Alves.
- Aprender como viver bem, embora tal aprendizado, não raramente, somente seja alcançado quando já estamos deixando a Vida – disse o Velho.
- Mas não será esta a melhor maneira de viver? Observando como os homens vivem, notamos como eles acreditam em absurdos e exigem o mesmo dos outros e de si mesmos. Veja, por exemplo, o caso da humildade e da bondade. Observando a multidão, podemos ver que elas são duas virtudes que nunca andam juntas e, no entanto, essa mesma multidão apregoa que o indivíduo bom é aquele que é humilde – disse Alves.
- Por que pensas assim? – perguntou o Velho.
- O que a maioria acredita que é a humanidade? Não é verdade que eles chamam de humilde aquele que é pobre materialmente? Para ela, aquele que não tem nada para dar é o humilde – se entendermos que ela julga segundo o que a pessoa tem e não segundo o que ela é, como ser humano. O que tem algo e dá, é julgado bom. Ora, continuando com este raciocínio, o humilde não pode ser considerado bom porque não tem nada para dar. Assim, se considerarmos o que acabo de dizer como correto, a humildade e a bondade nunca estarão presentes num mesmo indivíduo.
- Não entendo o que diz... – disse o Velho.

 

Continua...

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