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CAPÍTULO 10 - IDENTIDADE

 

Continuou o Velho: Meu amigo, este é um pensamento complexo e não consegue pensar assim, aquele que faz parte da multidão sem rosto. A multidão sente e reage, sem passar pela razão.
- Por que afirmas isso? - Alves perguntou.
- Ora, se lhe fosse dada a liberdade para pensar, não poderia ser controlada. Podes ver a razão disso em você mesmo. Onde foi que pensar sobre o que sentia o trouxe? – Falou o Velho e ele mesmo respondeu: ele o trouxe para aqui, para o hospício.
- Tens razão no que dizes – respondeu Alves. Talvez esteja justamente aí, o ponto do meu desconforto com o controle e a manipulação. Veja o caso de qualquer criança. São dadas tão poucas chances delas se manifestarem como desejam e assim é sufocada a própria vida que trazem em potencial dentro delas. É o que acontece. São poucos aqueles que um dia, no futuro, retomam o fio da meada, digamos assim, e nascem outra vez para a Vida. A sociedade aniquila a Vida tão logo ela se manifesta e os homens são transformados em cadáveres assassinos; não permitem seres vivos nesse mundo de fantasmas, porque lhes causariam pavor.  – Completou Alves.
- Sim, disse o Velho. Quanto sofrimento seria evitado se não houvesse pais com consciência de rebanho e professores, principalmente. É na escola que se continua a aprender tudo àquilo que depois precisa ser desaprendido, com muita dificuldade. Por outro lado – continuou -, se não existisse esse conhecimento que é transmitido desde o nascimento, nunca seria sentida a necessidade de nascer de novo. Trata-se de um paradoxo.
Pensativo, disse Alves: talvez seja assim e, nesse caso, só deve ser ensinado à criança aquilo que houvesse passado pelo crivo da ciência. Desta forma seriam eliminadas as crenças e opiniões, ficando somente o conhecimento comprovado, isto é, o verdadeiro conhecimento.
- Não seria isto perigoso? – Indagou o Velho - A ciência pode ser colocada a serviço do mal e usar recursos para a destruição e o aniquilamento. A vida toda do homem, meu caro amigo, é uma espada de dois gumes.
      Ficaram em silêncio. Aquele tipo de silêncio a que estão acostumados os homens que sabem da sua necessidade, para que possam refletir sobre o que conversaram. É diferente daquele que ocorre entre homens comuns. Naquele, ocorre um diálogo e neste um monólogo a dois. Somente no diálogo há crescimento mútuo.
      Alves foi quem rompeu o silêncio.
      - Penso que o caminho que leva à Vida deve ser percorrido sozinho. Por isso a dificuldade em encontrar outros indivíduos nele. São tão poucos que o mais próximo, na frente ou atrás, nunca é visto. É um caminho solitário, porém, percorrido com alegria crescente, embora aquilo que o levou até ele tenha sido a tristeza. Para manipular, o Poder necessita da crença de que a solidão é algo triste e que, por isso, deve ser desvalorizada para não ser buscada. O homem quando fica sozinho é perigoso, pois ele pode pensar e isto é preciso ser evitado a qualquer custo.
     - Continuas com razão – disse o Velho -, porém, ainda estás pensando de forma complexa. Se quiseres falar à multidão, deves ser acessível para que possas ser entendido sem nenhum esforço.
     - Podemos culpa-los por não se esforçarem? – perguntou Alves.
     - Acho que não... – disse o Velho.  Eles encontram-se exaustos ao final do dia, depois da luta pelo pão. E isso para falar do homem que trabalha para sobreviver. Nos outros casos, ele trabalha para atender às exigências de consumo de produtos que são, em sua maioria, supérfluos. Isso se pensarmos somente naquilo que o homem precisa para viver e que é, basicamente, comer, beber e ter um teto para morar. Não concordas? – Disse o Velho.
      - Concordo caro Juvenal - era a primeira vez que Alves se dirigia ao Velho pelo nome. Concordo caro Juvenal, como seria bom se o homem não precisasse trabalhar para outro homem, desperdiçando suas energias em fazer coisas que só servirão, na maioria das vezes, aos interesses dos patrões; obedecendo a regras, ordens que há muito tempo já não mais conseguem entender. E ao chegar a casa no final do dia, ele só tem forças para ir da porta ao prato de comida, que come diante da televisão e daí para a cama. O que come alimenta seu corpo para a servidão do dia seguinte e o que vê na televisão o faz acreditar que a vida é assim mesmo. Como podemos esperar que ainda viesse a ter consciência de que está sendo enganado para poder ser usado?
- Novamente tens razão. – disse o Velho.
– Suas palavras e pensamentos são privilégios que advém da reflexão. O homem comum não tem tempo para isso. Os homens que usam seus semelhantes e inventam mil maneiras para que pensem que estão sendo úteis e corretos ao colaborar para o bem do grupo, para o engrandecimento da nação, para a salvação do planeta, para evitar o “Efeito Estufa” que está destruindo a camada de ozônio, e de outras coisas das quais ele nada sabe e muito menos entende, mas acha que sim. Pobre homem que é impedido por seu próximo de viver plenamente a vida a que tem direito – disse Alves.
- Posso ver que existe em seu interior, meu amigo – falou o Velho – um vazio muito grande que o leva a olhar para dentro de si mesmo com uma imensa tristeza, que chega a ser autoflagelação.
- Não posso evitar – disse Alves. É um enrolar-me sobre mim mesmo, em virtude da impossibilidade de voltar-me para o exterior que não tem nada para me dar.
- E aí – continuou o Velho -, você fica escutando seus pensamentos varando este grande vazio, tira conclusões, enxerga verdades e procura viver por elas. O sofrimento é a característica deste seu modo de viver. Penso que somente quando conseguir expressar tais pensamentos é que terás paz. Sua mente não cessa de produzir pensamentos que se não forem exteriorizados, acabarão prejudicando seu próprio funcionamento, fazendo-o errar nos pensamentos seguintes. É necessário descarregar, é preciso entender e ser entendido para que possa ser útil, tanto para si quanto para os outros. Os filósofos pertencem a esse tipo de homens, e também os cientistas, os sábios e os poetas. E por que não acrescentar os loucos?
- Há nisso tudo que falas uma grande dificuldade – disse Alves.  Homens comuns não estão preparados para enxergar coisas diferentes daquelas a que foram ensinados. Não será esta a verdadeira loucura? Aquela que ignora a realidade de fato e em seu lugar vive outra, criada intencionalmente? O excesso de regras embrutece os homens e os levam a seus hábitos ancestrais simiescos.
- Talvez possamos...


 Neste ponto, a convers
a foi interrompida pela presença da enfermeira que trazia o almoço.

 

Continua...

 

 


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