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CAPÍTULO 11

 

Ora, aquele assunto estava longe de encontrar o seu final ou algo que se possa chamar de conclusão.
As crianças são como os alicerces sobre o qual a Humanidade é erigida. Durante o almoço, nenhum dos dois deixou de pensar sobre aquele assunto. Quando voltaram a se encontrar junto à janela onde estiveram conversando, aqueles homens tinham algo a dizer, mas foi Alves quem começou a falar.
- Estive pensando sobre o papel que os pais desempenham no desenvolvimento das crianças.
- Sim, e o que tem pensado? – Falou o Velho.
Ao que Alves respondeu:
- Veja bem: logo após o nascimento dos filhos, os pais agem como se eles fossem seus proprietários, quando deveriam pensar neles como sendo fruto de uma união de sentimentos e com o direito de ser algo especial e poderem viver suas vidas com o mínimo de interferência.
- E não é assim que acontece? – Disse o Velho.
- Não... – respondeu Alves e continuou:
- Os pais não se perguntam se estão criando-os da melhor maneira, pois, se o fizessem, procurariam não limitá-los com muitos sim e não desnecessários, com o objetivo de deixar seus espíritos exteriorizarem-se livremente; dando a oportunidade de virem à tona aqueles sentimentos mais profundos que, seguindo o padrão pré-estabelecido, nunca viriam. Eles já são diferentes ao nascer e continuarão a sê-lo por todas suas vidas, mas só intimamente.
Por que só intimamente? – Perguntou o Velho.
- É certo que não se sentirão à vontade no mundo ao expressarem sentimentos que foram previamente reprimidos pelo padrão social.
Ao que o Velho disse:
- Se tens razão, é provável que se sentissem a margem do grupo e nunca teriam a chance de viverem e sentirem cada pulsação e sentimento que atravessassem suas mentes, seus espíritos. Eles poderiam fazer uma escolha consciente, sobre a maneira como queriam viver suas próprias vidas.  E, assim, estariam preparados para não viverem segundo regras e sentimentos falsos, mas, sim, vivenciariam todos os milésimos dos segundos de suas preciosas vidas. Mas, será que seriam compreendidos?
 
Alves falou:
- É uma pergunta que fica no ar e que precisa ser respondida. Talvez possamos dizer que estariam mais preparados para enfrentar os desafios que a vida lhes apresenta, com menos sofrimento e mais consideração para com o próximo. Agindo assim, seus pais teriam lhes dado a chance para que a confusão, digo, a confusão não fosse sua amiga, quando estivessem diante da escolha entre dois valores. E aí, então, pais e filhos agradecerão uns aos outros por poderem viver lado a lado, aprendendo um com o outro, as maravilhas que emergem de espíritos abertos e francos. Cada um ensinando ao outro tudo aquilo que tenha valor para ser aprendido, com seus espíritos e mentes desprendidos das cadeias das regras de comportamento, previamente estabelecidas, e amarem-se uns aos outros. Um viver sem o perigo de corromper ou contaminar sua evolução, de uma maneira natural. Podendo viver assim, teriam a oportunidade de cumprir o mandamento do bem viver que é o de amar ao próximo como a si mesmo – concluiu Alves.
- Mas o que estás propondo – disse o Velho - é uma volta à irracionalidade, os comportamentos de cada um seriam dirigidos por instintos, tal como acontece com os seres irracionais.
 - Pode ser que sim, como também pode não ser... – disse Alves.
- Mas, o homem – disse o Velho interrompendo – é um ser social, isto é, supõe-se que, em sua origem, ele só conseguiu sobreviver graças à formação de grupos para sua própria defesa e mais tarde puderam formar uma sociedade civilizada e pacífica. E isso porque substituíram seus instintos por comportamentos aceitáveis. De outra forma, não vejo como os homens poderiam ter sobrevivido até hoje.
- Civilizada e pacífica?! – Disse Alves, parecendo espantando com o que o Velho dissera. Pois, eu pergunto: será que os instintos que foram reprimidos foram aqueles que deveriam? Chamas de civilizada e pacífica uma humanidade que vive em constantes guerras, conflitos urbanos, famílias em constantes discórdias; em que cada homem caminha sobre as mesmas pegadas de seus antecessores, repetindo os mesmos erros e sem nunca sair do mesmo lugar? Quem vive na miséria? Quem tem remorso? Quem briga o tempo todo? Não é justamente este homem? Não estaremos certos ao dizer que este homem que aí está, é aquele que surgiu da repressão de tais instintos que, segundo você argumenta, foram úteis para sua defesa contra os seres mais fortes e as intempéries da natureza? Se o homem contemporâneo é o resultado da repressão dos instintos a que te referes, penso que podemos acreditar que não contribuíram para o bem da civilização atual e a qual chamas de pacífica e civilizada.
Sem esperar que o Velho pudesse dizer alguma coisa, Alves continuou:
- Pois, eu lhe digo meu caro Juvenal: antes, pelo contrário, levaram a humanidade ao caos. E, se estou certo em meu raciocínio, não há como voltar e começar outra vez. Isso sem entrar na questão da possibilidade de poder recomeçar e escolher quais os instintos que deveriam ser reprimidos e quais os que deveriam ser cultivados, de tal modo que somente estes últimos prevalecessem sem cair no mesmo erro cometido anteriormente, quando fizeram tais escolhas.
Ao que o Velho disse:
- E qual a garantia de que escolheriam acertadamente? E, além disso, quem os escolheria?
- Vejamos – continuou Alves -, nós não conhecemos uma vida assim, baseada nestes sentimentos mais profundos e aos quais acabou de chamar de irracionais, comparando o homem às feras que agem apenas de maneiras instintivas, aliás, talvez pudéssemos dizer natural.
E disse o Velho:
- Não sei se estou conseguindo entender aonde quer chegar, caro amigo, uma vez que é sabido que se o homem fosse deixado entregue a seus instintos primários nunca teria chegado a viver coletivamente, como já disse. É a história e a ciência que nos dizem isso – completou o Velho.
- É neste ponto que quero chegar – disse Alves.  A história e a ciência nos dizem isso. Mas quero chamar sua atenção para o fato de que são apenas teorias, isto é, conhecimentos baseados em princípios que, na  sua maioria, ainda não foram comprovados. Daí serem chamadas de teorias e não de leis, como é o caso da Lei da Gravidade, por exemplo.
- Confesso que continuo sem saber aonde quer chegar – disse o Velho.
Prosseguiu Alves:
- Usarei um exemplo radical, para ser enfático. A afirmação de que todo ser humano tem um coração é apenas uma teoria. Para ser provada teríamos que auscultar todos os homens ou abrir o peito de todos eles. Só assim passaria a ser uma lei, isto é, uma verdade.
Ao que o Velho indagou:
- E quanto à Arqueologia e demais estudos que se dedicam ao passado da humanidade?
Alves disse:
- Estes estudos vão somente até certo ponto e daí para trás são somente especulações e, portanto, carecem de comprovação, ou seja, são apenas teorias. Uma teoria funciona até que outra venha tomar o seu lugar ou venha a ser comprovada. O nosso planeta já foi o centro do sistema solar; hoje sabemos que não é assim, e o que agora pensamos saber ainda podemos chamar de teoria - disse Alves.
- Sou incapaz de refutar seus argumentos e por minha ignorância nestes saberes, sou obrigado a calar-me, mas não posso dizer que esteja convencido – disse o Velho.
- É preciso reinventar o Homem, meu caro – disse Alves. Edificamos uma casa sobre a areia e moramos nela. Mas, se aparecem rachaduras nas paredes, é porque há algo errado; e o arquiteto ou engenheiro, acabará por concluir que o problema está no alicerce.
Ao que disse o Velho:
- Concordo com o que dizes com relação à construção de uma casa, mas qual a relação com o conhecimento? Acaso queres dizer que o conhecimento alcançado e que tornou possíveis os avanços da ciência são falsos? A base do seu raciocínio é invalidada pela atual tecnologia que só trouxe benefícios ao homem.
- Pois eu vou mais além – falou Alves - e digo que é preciso reinventar a roda! Não concordas que a humanidade está se despedaçando?  As pessoas são egoístas, amantes do dinheiro, orgulhosas, arrogantes, descontroladas, violentas, traidores, cheias de prepotência, hipócritas; e ainda que mantenham uma forma exterior de religiosidade, negam o poder espiritual. As paredes apresentam rachaduras, é preciso derrubá-las e refazer o alicerce. As rachaduras existentes indicam uma iminente catástrofe mundial. Penso que somente depois dela, talvez seja possível começar tudo de novo... Talvez, repetiu Alves.
- Desde que sobrasse um resto – completou o Velho.
Ao que Alves completou:
- Então só nos resta descobrir como fazer parte deste resto que sobreviverá.
Pensativo, o Velho falou:
- Isto me faz lembrar que já ouvi uma algo a esse respeito, isto é, sobre um “resto” ou um “toco”... Não sei bem...

Seguiu-se um tempo em que ficaram calados.

Enquanto isso, na enfermaria, pairava o cheiro do silêncio.

 

 

Continua...

 

 


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