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IDENTIDADE - CAPÍTULO 2

O INESPERADO ACONTECE

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Com a morte dos pais, uma modificação súbita na sua atual condição de vida, provocou uma mudança em suas atividades que, até então, giravam somente em torno da namorada, o estudo, a leitura e a conversa durante a cerveja com os amigos, após a faculdade.
Como acontece com este tipo de notícia, chegara repentinamente, quando ele passava as férias na fazenda dos pais da namorada, numa cidade do interior do Estado.
Este acontecimento inesperado veio mudar tudo. Como ele viveria dali em diante, não podendo mais contar com a comida e roupa lavada, além das despesas com os estudos, custeadas pelos pais?
Agora, estaria por conta própria.
Foi com tais pensamentos, misturados com a dor da perda, que ele embarcou, antes do dia amanhecer, no trem que o levaria de volta à cidade para o enterro.
O que ele desconhecia é que ao enveredar por este novo caminho, encontraria uma estrada que não lhe ofereceria segurança alguma, enquanto por ela trilhasse, deixando-o, a todo instante, diante de situações em que teria que fazer escolhas.
Ele tinha consciência do que é exigido do indivíduo para conviver em sociedade, gozando de segurança. Mas, agora, não seria apenas uma pessoa voltada somente para os estudos; sabia que teria de aceitar os valores estabelecidos ou, então, lutar pelos próprios valores, que antes considerava inegociáveis.
Sabia da existência de uma autoridade social anônima e, sabia também, que é somente submetendo-se a ela, que as pessoas conseguem sentir alguma segurança, embora falsa.  Abrir mão de certas coisas era para ele um problema inegociável; algumas ele não queria e nem abriria mão. Ele sabia disso e aí residia a maior parte das dificuldades que encontraria. A maneira como as resolveria iria definir, definitivamente, a sua personalidade.
Segundo ele acreditava, o modelo social imposto à massa, pode ou não ser aceito sem contestação pelos indivíduos.
Quando se submete ao sistema, a pessoa encontra segurança imediata, pois cada atitude é reforçada pela seguinte, contribuindo para que ela continue sendo aceita pelo grupo, levando-a a uma vida em harmonia com os demais, isto é, igual a eles.

Por outro lado, caso não aceitasse viver assim, sem o apoio financeiro dos pais, ele não conseguiria; sem falar nas consequências de uma atitude que seria considerada por todos como rebeldia; consequências estas, até então desconhecidas por ele.
Precisava de outra opção.
A aceitação parcial de todas era inaceitável. Neste caso, ele ficaria dividido entre o contexto familiar e aquele que era aceito pela massa manipulada socialmente. Embora com aparência de boa, não lhe seria vantajosa e muito menos a melhor. Na verdade, o que estaria fazendo era deixando para depois, a solução de alguns problemas, quanto à adoção ou não, de certos comportamentos e que eram justamente aqueles que entravam em choque com o aprendido no contexto familiar e nas conversas com os amigos da faculdade. Neste caso, os problemas poderiam persistir toda a sua vida. Não havia nenhuma garantia e, também, lhe causava certa confusão, com um gosto de fracasso, que ele não sabia definir. Estava tudo muito misturado em sua mente; mas percebia perfeitamente, a impossibilidade que seria uma vida assim.
Diferentemente dos demais passageiros, que apreciavam a paisagem através da janela, ele não a via, envolvido que estava com seus pensamentos.
Ele se encontrava diante de três situações inconciliáveis e tendo que escolher uma delas. Uma era seguir o modelo familiar que recebera durante a infância; outra era seguir o modelo social que não desautorizava completamente o primeiro, mas impunha-lhe restrições e ajustamentos e, por último, àquela que o obrigaria a viver entre os dois modelos, numa constante luta, obrigando-o a conciliá-los a todo instante e que sabia ser incapaz de manter durante todo o tempo, pois, viveria num alerta constante, que acabaria levando-o à exaustão, tanto física como mental.
Para desempenhar vários papéis, Alves fora escolhido para atuar nesta peça no palco da vida. Ser vários personagens, ao mesmo tempo em que buscava a conciliação entre eles, que lutavam entre si pela presença no palco; uma luta da qual ele não sairia o mesmo, pois, não conseguiria ser fiel a nenhum deles.
Alves não escolheu, fora escolhido; e não se sabia por que e nem por quem.
Mas, tais acontecimentos eram necessários na construção de uma nova identidade que poderia, ou não, fazer dele um indivíduo.
Pensativo estava e pensativo continuou durante toda a viagem; mesmo nos momentos em que cochilava.

Desde a estação, enquanto esperava o trem chegar, e mesmo já dentro dele, procurou evitar o contato com os outros passageiros dos assentos vizinhos ao seu. Já pela manhã, durante o café no vagão-restaurante, ele não tinha nenhum assunto de real interesse sobre o qual pudesse conversar e até mesmo o bom-dia com que o saudavam ao passar por eles, achava perfeitamente dispensável, para não dizer ridículo, pois, o bom-dia a que eles estavam se referindo, não seria o mesmo para ele e nem o dele que ele sentia-se obrigado a retribuir, mecanicamente, seria para eles; um aceno com a cabeça ou com a mão seria mais adequado e honesto, já que o costume o obrigava a cumprimentá-los.
 Já cansado de tanto pensar e com o barulho cadenciado do trem sobre os trilhos, acabou dormindo e somente acordou quando chegou à cidade grande.
Parado na estação, com as mochilas às costas, pensou que estava indo para onde nunca pensara antes.
Mal sabia ele o que o aguardava quando lá chegasse.

 

Continua...

 

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