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IDENTIDADE - CAPÍTULO 03

O DESCONHECIDO

 

Quando Alves chegou à igreja onde estavam seus pais, transcorria a cerimônia dos mortos, considerada por alguns cristãos como o ponto alto dos funerais.
Pela última vez os corpos de seus pais, foram conduzidos para a igreja onde, durante suas vidas, congregaram com os outros membros.  Seus despojos mortais representavam tudo o que eles foram durante suas vidas. E foi nesta cidade, frequentando esta mesma igreja, que Alves passara a sua infância, sendo ensinado em suas doutrinas religiosas.
      Desde o momento em que entrou na igreja e sentara ao lado dos dois ataúdes, Alves não mais se mexeu. Ficou sentado, olhando fixamente para um lugar indeterminado no alto, como se estivesse refletindo num dos grandes mistérios da existência, isto é, como um espírito eterno veio a envolver-se com um corpo físico, e como esse elemento físico é incapaz de resistir à ruína produzida pela passagem do tempo, e finalmente morrer, livrando outra vez o espírito, de sua habitação de carne. Do pó ao pó!
Dada a sua quietude, a não ser pelos olhos que piscavam de vez em quando, nada demonstrava que ele estivesse vivo.
Todos atribuíam o seu estado à dor causada pela perda, de uma só vez, do pai e da mãe. Alves ficara naquela mesma posição desde que chegara ali. Na igreja, somente o padre sentado ao seu lado esperava, numa atitude coerente com a de um confortador dos vivos.
      Porém, era necessário que os corpos fossem levados à sua última morada e o padre tinha outros compromissos, outras almas a confortar.
E foi somente depois de muito insistir com aquele filho ferido e nada conseguindo, nem sequer um leve movimento ou expressão facial, foi que o sacerdote, segurando-o pelo braço, conseguiu que ele se levantasse e puderam, enfim, seguir para o cemitério ao lado, onde já os aguardavam algumas daquelas pessoas que na igreja estiveram.
Ao ser conduzido, Alves não esboçara a menor reação e caminhava pelo salão da igreja como se ali não estivesse.
Ao final, depois da última pá de cal, o padre ainda chegou a esboçar a intenção de levá-lo para casa, porém, não completara o gesto, como se adivinhasse qual seria a reação, e achou melhor deixa-lo sozinho um pouco mais, entregue à sua dor. Afastou-se depois de fazer o sinal da cruz.

A noite chegou e Alves continuava lá, ao mesmo tempo em que uma angústia tomava conta dele; um medo como de um perigo que viria, mas que não sabia qual era; um estado de alerta o invadiu, junto com a convicção de sua incapacidade absoluta diante deste perigo não identificado. Não demorou a sentir seu pulso acelerado e a transpirar nas mãos e na face, além de sentir uma forte dor na cabeça.
Assim, o homem se deita e não se levanta; enquanto existirem os céus, não acordará, nem será despertado do seu sono. Morrendo o homem, porventura tornará a viver? Assim, como as águas gastam as pedras, assim é destruída a esperança do homem.
      Na manhã seguinte os funcionários do cemitério foram encontrá-lo ao lado dos túmulos, sob uma chuva fina que caia. Estava sentado no chão, envolvendo com os braços os joelhos junto ao peito, e todo o seu corpo tremia. Aproximando-se, um deles tocou em seu ombro e logo percebeu que ele estava inconsciente.
 Levaram-no para o hospital mais próximo e deixaram-no lá, voltando para o cemitério. Tinham trabalho a fazer.

      Uma vez no hospital, depois de passar cinco dias em observação, durante os quais fora submetido a exames clínicos, e sem encontrar nada de anormal, foi liberado pelos médicos.
Seu corpo estava são. Se tivessem acompanhado a sua vida nos anos que se seguiram, talvez modificassem aquele diagnóstico.
Já na calçada, fora do hospital, Alves olhou ao redor sem saber onde estava. Fraco e desnorteado vagou pelas ruas sem direção e acabou chegando, sem saber como, ao lugar onde morava. Deixou-se cair na poltrona e acabou adormecendo.
Alves sentia grande dificuldade para expor-se ao mundo, fora daquelas paredes que lhe davam segurança. Sabia que o mundo lá fora exigiria dele renúncias e constantes conflitos, experiências e improvisações penosas.
Como Adão, encobria seu sentimento de culpa, ocultando o seu delito no próprio interior, porque temia a grande multidão e o desprezo das famílias o apavorava, de sorte que não saiu pela porta. Tomara tivesse quem o ouvisse!
Sentindo--se assim, não tardou a surgir o impulso de fugir à realidade. A vida sempre encontra possibilidades de contornar a realidade, vê-la e suprimi-la com o prazer momentâneo da satisfação fugaz que alivia, mas que também cobra um preço que pode vir pela renúncia voluntária em viver ou o de isolar-se mentalmente. Ele estava na situação de aceitar ou negar a realidade. Sabia, de maneira clara, que precisava esquivar-se dos conflitos que enfrentaria no mundo exterior. Mas como? Era o que se perguntava.
Na verdade, o de que Alves mais precisava naquele momento era de tempo, um tempo para pensar e colocar seus pensamentos em ordem, antes de enfrentar a luta pela sobrevivência no mundo. Sua ideia sobre o que era a vida não estava de acordo com o que era de fato a realidade. Não podia ser assim. Precisava descobrir quem estava certo: ele ou o mundo. Este pensamento não era novo, era o mesmo que não o largava desde o momento em que recebera a notícia dos pais, o mesmo que ocupava sua mente durante a viagem de trem, o mesmo de quando estava na igreja, enquanto as pessoas atribuíam seu mutismo à dor pela perda e ainda o mesmo que estivera com ele no cemitério. Sempre o mesmo.

Gotas de suor escorriam pelo rosto ao mesmo tempo em que uma onda de calor subia-lhe à cabeça e sentindo-se fraco e sem apoio, subitamente desfaleceu no chão da cozinha.
Quando acordou novamente no hospital, a que fora levado por aqueles vizinhos que Alves desdenhava, é que ficou sabendo pela voz do médico que, naquele mesmo dia ficaria em observação na Ala de Psiquiatra do hospital. Sem saberem qual o seu mal, besuntaram a verdade com mentiras, sendo médicos que não valem nada. Se ficassem calados de todo, isso seria a sua sabedoria!
Ironicamente, Alves conseguira o tempo de que tanto precisava.
Mesmo que fosse ali dentro.

 

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